Crônicas
Torto

A garrafa, com pinga e groselha, atirada nas águas do peito para fisgar alegria, nadou nos olhos. Gozado, nunca tinha chorado de alegria.

Mas a fisgada no peito parecia doer mais que a cabeça enfaixada, aquele pano tingido de vermelho. E alegrava feito sabiá no salto da manhã. Sei lá por que.

Os gringos caíram de quatro, explicaram, e você foi o demônio, o anjo que dançou, infernizou, bailou, até esgota-los, mãos postas, de joelhos no chão, pedindo clemência.

Até a torcida adversária bateu palmas, gritou pra dentro, emocionada. Sei lá o que palavras que não conheço querem dizer.

Só lembro que quando fui praquele país, onde não tem pinga com groselha nem pra remédio, pensei nos gringos como lambaris – teriam que morder, engolir os anzóis nas minhas mãos. Ali ó: na unha. Ou nos pés, como queria e falava o treinador. Ou nas minhas pernas, pensava. Não pensava, ria. Sozinho.

E depois daquela pedrada, engraçado, os pelos do corpo todo ficaram durinhos, como quando eu chorava feito criança com saudades. Saudades do rio, saudades da mulher, da fábrica, do boteco, do bairro, das ruas magrelas, dos amigos, das filhas, da cachaça com groselha, dos campinhos.

Era uma pedra deles, com raiva, estrangeira, derrotada, uma bala, bola bicuda. Fiquei com uma coisa assim na garganta, nos olhos, na boca. Mastiguei aquele gosto. Nem liguei mais pro juiz, que me expulsou com um apito só, assombração vestida de preto. Ou pro jogo que ainda faltava naquele campeonato louco que não tinha nem segundo turno.

Falar bem a verdade, fiquei assim parado, morno, olhando pra vida e pro riozinho devagar, com toda a certeza que tinha quando moleque: essas pernas ainda vão servir pra alguma coisa.

Tortas e tudo.

 

 

Polaca

Era. É uma polaca apimentada. Pastoreia ovelhas e carneiros estendidos sobre seu vestido encarnado e preto, que esparrama sobre as calçadas, deixando naco de pernas à mostra, ou gramados estonteantes.

Dóminus vobiscum! Com a prata da cruz, afugentou demônios e atentados doidos para morder sua carne ou espetar seu coração. Nunca lhes mostrou os dentes em sorriso qualquer. Amou um negro e recebeu o hálito gelado dos tigres de plantão e seus caninos cariados. Do zoológico inteiro. Amou pleno. Fez com ele filhos. Carnes alva e negra. Amou. Passou. Amou outros. Quase descarnar sóis em céus noturnos. Estrelas desenvergonhadas.

Na praça, de olhar parado, ao olhar chumaços de polaquinhas em gritos estridentes de andorinhas se viu menina a cantar, com o barro preto entre os dedos dos pés na cidade enfiada na história e no passado.

Olhar embebido nas gentes, em suas dores e ardores, adornou o labor e os dias com integridade irritante. Nenhum desvio, nenhuma derrapada em suas curvas magras. Aprendeu cânticos e orações, uma imensidão de mulher submersa, relâmpagos em meio aos peitos mansos. Lateja. Provoca relampejares. Cobiças.

É uma polaca apimentada. Caminha sobre fragmentos de perigos como se pisasse nuvens, a desafiar olhares e desejos; não os teme, a andar sobre paralelepípedos ou asfalto, gosmento ou esfarelado, de ruas indecentes. Ergue as barras do vestido encarnado e preto para ficar limpo do esgoto que corre impune em meio a prédios e insones.  Se curva aos braços da Virgem Negra de Czestochowa. Pede bênção e se perde em sentimentos.

Te amo, polaca.

Nilson é jornalista, escritor e membro da Academia Paranaense de Letras

O trem que nos une

Há um trem apitando dentro de mim.

Há um trem teimoso e incansável a apitar saudades, melancolias, angústias e alegrias. Apitando lembranças de vagões cheios de pessoas, ricas e pobres a dividir espaços.

Há um trem com mistura de todos e tudo – homens, mulheres, malas, pacotes, trouxas, galinhas, porcos, crianças esparramadas pelos seus lugares.

Há um trem a erguer cancelas e assustar gente e animais nas cidades e nas roças por sua presença metálica e pesada. A soltar fumaça, como fogão à lenha em movimento, ou deixar rastros de óleo e de aço rangido contra trilhos.

Há um trem indo e vindo repleto de lembranças de um tempo em que as pessoas se reuniam, com cadeiras nas calçadas, para falar de tudo, sob luzes remelentas. A lembrar do respeito que havia entre os que moravam nas aguadas, nos sítios, nas fazendas, nas cidades pequenas, aqui e ali, ligados pelo trilho que cortava as conversas com seu barulho hoje extenuado de nostalgia.

Há um trem que rasgava campinas, e me lembra a saudação quase rural dos habitantes, especialmente dos mais velhos, de Campina Grande do Sul, que me enche o peito de alegria e, diria, de emoção.

Há um trem que cutuca a lembrança das barras de trilhos, a lembrar o papel histórico de Quatro Barras, o último pouso dos cavaleiros ou condutores de mulas que se enfiavam mata adentro em direção à Serra do Mar. E vice-versa, ligando o progresso da litorânea Paranaguá com a acanhada vila de Curitiba dos tempos de então.

Era uma trilha graciosa de onde talvez se escutasse, anos depois, o apito mecânico e difuso do trem na Estrada Ferroviária Curitiba- Paranaguá.

Há um trem que passa costurando a imaginação de pessoas, das quais foi íntimo ou não, em Colombo, Adrianópolis, Pinhais, Piraquara, Bocaiúva do Sul, Tunas do Paraná, em outras estações e segue apitando país afora, cérebros além, corações apertados.

Há um trem, ruidoso, apitando dentro de mim, um trem que sobe e desce montanhas de memórias e sentimentos.

Um trem que não passa despercebido da gente de nossa terra, embora suma em seus caminhos para horizontes embaçados e, tristemente, sem volta.

Nilson Monteiro é jornalista, escritor e membro da Academia Paranaense de Letras.