Crônicas
O trem que nos une

Há um trem apitando dentro de mim.

Há um trem teimoso e incansável a apitar saudades, melancolias, angústias e alegrias. Apitando lembranças de vagões cheios de pessoas, ricas e pobres a dividir espaços.

Há um trem com mistura de todos e tudo – homens, mulheres, malas, pacotes, trouxas, galinhas, porcos, crianças esparramadas pelos seus lugares.

Há um trem a erguer cancelas e assustar gente e animais nas cidades e nas roças por sua presença metálica e pesada. A soltar fumaça, como fogão à lenha em movimento, ou deixar rastros de óleo e de aço rangido contra trilhos.

Há um trem indo e vindo repleto de lembranças de um tempo em que as pessoas se reuniam, com cadeiras nas calçadas, para falar de tudo, sob luzes remelentas. A lembrar do respeito que havia entre os que moravam nas aguadas, nos sítios, nas fazendas, nas cidades pequenas, aqui e ali, ligados pelo trilho que cortava as conversas com seu barulho hoje extenuado de nostalgia.

Há um trem que rasgava campinas, e me lembra a saudação quase rural dos habitantes, especialmente dos mais velhos, de Campina Grande do Sul, que me enche o peito de alegria e, diria, de emoção.

Há um trem que cutuca a lembrança das barras de trilhos, a lembrar o papel histórico de Quatro Barras, o último pouso dos cavaleiros ou condutores de mulas que se enfiavam mata adentro em direção à Serra do Mar. E vice-versa, ligando o progresso da litorânea Paranaguá com a acanhada vila de Curitiba dos tempos de então.

Era uma trilha graciosa de onde talvez se escutasse, anos depois, o apito mecânico e difuso do trem na Estrada Ferroviária Curitiba- Paranaguá.

Há um trem que passa costurando a imaginação de pessoas, das quais foi íntimo ou não, em Colombo, Adrianópolis, Pinhais, Piraquara, Bocaiúva do Sul, Tunas do Paraná, em outras estações e segue apitando país afora, cérebros além, corações apertados.

Há um trem, ruidoso, apitando dentro de mim, um trem que sobe e desce montanhas de memórias e sentimentos.

Um trem que não passa despercebido da gente de nossa terra, embora suma em seus caminhos para horizontes embaçados e, tristemente, sem volta.

Nilson Monteiro é jornalista, escritor e membro da Academia Paranaense de Letras.